“EU SÓ QUERIA VER DE PERTO!”

 

Antes de tudo, devo esclarecer, que o objetivo deste texto não é causar, no leitor, sentimentos de compaixão, muito menos me colocar como vítima da sociedade ou do destino. DEUZOLIVRE!

Isso posto, prossigamos… (rs)

digitalizar0007 scaled - O MUNDO VISTO DE DENTRO DE UM FUSCA

Em vários momentos da minha infância e adolescência, fui apenas um mero espectador. Enquanto observava as atrações que o mundo oferecia aos “normais”, eu pensava: “Ah! Como eu gostaria de estar lá!

Sim… Eu queria muito me jogar no meio da ‘muvuca’, da farra! Ou, pelo menos, assistindo um pouco mais de perto.

Até os meus 20 e poucos anos, eu apreciava os movimentos que aconteciam lá fora através das janelas, na maioria das vezes, do Fusca verde abacate do meu pai. Naquela época, minhas participações nos eventos que aconteciam na cidade eram imaginárias, visto que eu sempre estava a dezenas de metros de distância, observando tudo atentamente de dentro do carro. É isso mesmo! Por exemplo, os desfiles de escola de samba na rua 13 de Maio, as quermesses nas pracinhas das paróquias e os ‘showmícios’ eleitorais que ocorriam no estacionamento da rodoviária, com artistas famosos da TV (naquele tempo era permitido).

E não foram somente nessas ocasiões que eu me sentia como um peixe dentro do aquário. Outras recordações estão igualmente guardadas na caixa de lembranças intitulada “Incluido, pero no mucho”. A maioria delas me transporta para o início dos anos 80. Então, vem comigo…

Nos finais de semana, uma galera se reunia perto de casa, para assistir uma corrida maluca com carrinhos de rolimã que desciam morro abaixo. Eu observava a movimentação pela vidraça da sala, morrendo de vontade de estar no meio daquela plateia alucinada, composta de jovens da minha idade. Certo dia, a insatisfação culminou em uma “explosão” caseira, e, finalmente, comecei a reivindicar, de forma mais incisiva, o meu direito de ser incluído naquele forfé. Lembro-me que, depois de várias discussões, meu pai acabou cedendo e (UFA!) começou a me levar naqueles memoráveis encontros. Viva! Até que enfim, eu ficava pertinho da aglomeração, dentro do nosso velho Fusca. Feliz com o avanço, passei a fazer parte de uma cena que, até então, estava distante de mim. Já ouviu falar em pertencimento?

Todas as atrações da cidade, incluindo clubes e discotecas, faziam parte de um mundo inacessível para mim. Aos poucos, fui percebendo que SIM, sempre foi possível eu estar naqueles lugares e eventos. Eu só precisava de alguém disposto a me levar na cadeira de rodas. “Mas, Sérgio, por que seus pais não o levavam?” Ah! Este assunto é complexo! Qualquer dia falo sobre o excesso de proteção que muitos pais têm com filhos que possuem algum tipo de deficiência.

Outros episódios de exclusão (não encontrei outra palavra para definir essas situações), também ocorreram no ambiente escolar. Recordo-me das aulas de Educação Física que rolavam na quadra e das apresentações teatrais que aconteciam no pátio. No início de minha inserção na rede pública de ensino, eu observava essas atividades através das imensas janelas das salas de aula.

Quero destacar um acontecimento inesquecível e insólito, ocorrido durante a encenação de uma peça teatral. No roteiro, havia um personagem cadeirante. OK, até aqui tudo certo. O inusitado vem agora: A pedido de um dos professores, emprestei minha cadeira de rodas para o ator sem deficiência interpretar o personagem com deficiência, enquanto eu assistia o espetáculo pela janela, sentado – desconfortavelmente, por sinal – em uma cadeira convencional. Pois é… Se eu tivesse recebido o convite para integrar o elenco, certamente eu teria respondido um sonoro SIIIM. Mas ninguém cogitou essa possibilidade.

Mamãe, que na época ficava de prontidão no pátio para uma eventual ajuda emergencial, ficou o tempo todo ao meu lado, fisicamente falando. Bem… Neste momento, me reservo no direito de não me manifestar sobre a passividade da minha “velha” diante daquela circunstância um tanto bizarra. Fica mais uma reflexão.

Nota: Estarei sendo injusto se eu não mencionar sobre as diversas vivências de inclusão e solidariedade ocorridas nesta mesma escola, no decorrer dos anos seguintes. Graças à nova direção, passei a ver tudo de perto, não só as aulas de Educação Física e as apresentações de teatro, como também todas as atividades externas – embora ainda como mero espectador. A nova diretora nomeada tomou algumas medidas acolhedoras e inclusivas, entre elas, designou um funcionário para me ajudar, que me carregava pra lá e pra cá, amenizando as dificuldades para superar as barreiras do colégio.

As histórias com finais felizes e outras experiências positivas merecem um texto à parte, bem como os apontamentos sobre a falta de acessibilidade que persiste até hoje naquele belíssimo edifício histórico, o qual ainda abriga uma unidade da rede estadual de ensino.

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A vida é da cor que a gente a pinta.