UMA JORNADA COM DESTINO À FELICIDADE

Jamais nos esqueceremos das viagens para São Paulo, em busca da realização do nosso maior e mais audacioso sonho: ter um filho(a). Essa jornada, quase interminável, foi marcada sobretudo pela esperança! Mas o cansaço físico ficou igualmente registrado em nossa memória, pois nosso transporte era feito nas velhas ambulâncias da prefeitura de Amparo, às vezes numa pick-up, outras numa Kombi. Meu pior pesadelo acontecia quando a S10 parava na porta de casa! O som do seu motor já anunciava que, nas próximas 3 horas, seríamos trancados em um cubículo e terrivelmente torturados, principalmente por causa dos solavancos. A companhia de Elis, que também viajava desconfortavelmente ao meu lado, amenizava meu tédio e diminuía minha insegurança, especialmente quando ela segurava minha mão. Resumo de nossa situação durante a viagem: eu, sentado na cadeira de rodas, que ficava amarrada improvisadamente nas laterais da caçamba (ou seria carroceria?); ela, sentada num banquinho fixo no piso do veículo, revestido com estofado duro e rasgado.

IMG 522 - À ESPERA DE UM MILAGRE

Foi numa tarde fria e chuvosa, na última semana do outono de 2007, que eu e Elis recebemos uma notícia aparentemente desanimadora: o resultado do espermograma indicou que as chances de termos um filho eram mínimas. 

Esse panorama pessimista não tinha ligação direta com minha deficiência física, porém o fato de sempre viver sentado me tornou estéril… ou quase. 

Saímos do consultório médico muito tristes e ficamos por quase meia hora parados em frente à clínica, debaixo de um toldo, esperando a chuva passar. Não me contive e comecei a chorar, enquanto minha esposa me abraçava.

Durante os primeiros meses de união, debatemos muito sobre essa importante escolha: ter ou não ter filhos? Vários fatores foram colocados na balança, sendo um deles o “tempo”, pois eu estava com 41 e ela com 36 primaveras completadas. Outro assunto sobre o qual refletimos, colocado também por aqueles que nos observavam do lado de fora e principalmente por nossas famílias, estava relacionado à minha condição física, bem como à disposição de minha esposa para cuidar de dois, uma vez que sou totalmente dependente de outra pessoa para realizar as atividades básicas do dia a dia.

Após uma profunda reflexão, na qual ponderamos todas as prováveis dificuldades e desafios inerentes à paternidade e à maternidade, decidimos pelo SIM, e nos dias que se seguiram pesquisamos sobre as alternativas para realizarmos este sonho!

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Domingo, 12 de julho de 2009; 6h de uma manhã fria; Hospital São Paulo.

Acordei com o sol invadindo o quarto e me aquecendo. Demorei um pouco para me situar e lembrar onde estava exatamente. Tomado por uma súbita alegria, sussurrei: – É hoje!!

Olhei para a cama ao lado e não vi minha esposa, logo percebi que ela acordou mais cedo e já estava no chuveiro. Ao sair do banheiro, me deu um beijo e, depois de trocarmos algumas frases a respeito do que aconteceria conosco, me deu um delicioso banho, ali mesmo, na cama. Antes da equipe de enfermagem entrar no quarto, eu já estava pronto, devidamente cheirosinho e limpinho. Os primeiros enfermeiros trouxeram duas macas, os materiais para as respectivas assepsias e as roupinhas especiais para cirurgias. Após me dar outro beijo, Elis foi levada à sala cirúrgica para a realização do procedimento de retirada dos óvulos. Os enfermeiros que ficaram, solicitaram dois reforços para ajudarem na minha transferência da cama para a maca. Segui então para outra sala cirúrgica, onde eu seria submetido a um pequeno procedimento cirúrgico para retirada dos espermatozoides.

Eu e ela ainda nos encontramos numa antessala e ficamos alguns minutos deitados nas macas, lado a lado e de mãos dadas. Tivemos um tempinho para falar sobre a importância daquele momento e ainda fazer uma breve oração. Logo depois, nos levaram para as respectivas salas. Imaginei o que minha mãe estava fazendo em casa naquela hora. Provavelmente, ela estava rezando diante de uma vela acesa, segurando forte sua santinha preferida, Nossa Senhora Aparecida, e torcendo para ganhar o maior presente da sua vida: um netinho… ou uma netinha.

Não havia risco de morte durante o meu procedimento, porém houve alguns cuidados especiais em relação à minha condição neuromuscular, sendo a mais preocupante, minha baixa capacidade respiratória. Por isso, optaram pela anestesia local e sugeriram que eu usasse o meu BiPAP durante o procedimento.

Numa posição muito constrangedora, tipo quando a mulher faz Papanicolau, senti repentinamente uma picada no testículo. É desnecessário descrever detalhadamente a sensação e a dor experimentadas naquele instante. Eu só posso afirmar que não seria uma dorzinha que iria deter meus planos de ser papai.

Eu estava apreensivo, mas tranquilo, preocupado apenas com uma coisa que o anestesista havia me dito:

– Sérgio, por precaução, nós aplicaremos a anestesia gradualmente.  Portanto, nos avise quando você perceber que o efeito da anestesia está passando, para aumentarmos a dose. Não se preocupe, vai dar tudo certo.

– Ok Doutor. – Respondi serenamente. Mas quando meu cérebro processou a informação, dei um grito: – Oooo quêêêêê???

Enquanto extraíam meus “melhores” espermatozoides diretamente da fonte, comecei a sentir uma mão mexendo dentro dos meus testículos e um ligeiro desconforto, que rapidamente se transformou numa dorzinha. Quando a dor chegou no nível 3, numa escala de zero a 10, precavido, já disparei um sonoro

– Aaaaaiiiiiii Doutor!!! E o mesmo já providenciou outra dose de anestesia. Isso aconteceu mais duas vezes durante o ato.

Durante 90 minutos senti o coração batendo dentro do meu “saquinho” e, antes do “arremate”, percebi que o médico – chefe da equipe – saiu em disparada, levando com ele um recipiente. Imaginei o motivo daquela corrida, pois eu sabia que, imediatamente após a retirada dos óvulos e dos espermatozóides, seria realizado o processo crucial para o nosso êxito: a técnica de reprodução assistida, conhecida como Fertilização In Vitro – FIV.

Logo depois, com o testículo devidamente suturado, saí da sala e fui direto para o quarto, onde Malu – minha irmã do coração – já estava nos esperando. Não demorou muito para Elis também chegar.

Conforme previsto, fomos liberados no fim do dia. O relógio marcava 19h00 e nada do veículo da prefeitura chegar. Ligamos para saber o motivo do atraso e soubemos que a Kombi quebrou na estrada, mas que outra já estava a caminho. Saímos do hospital rumo a nossa querida “Amparo City” por volta das 21h, deixando nosso rico material no hospital.

Após uma viagem muito dolorida (eu gritava “ai” a cada balanço da Kombi), chegamos em casa perto da meia noite. Meus pais estavam acordados, eufóricos para saber tudo sobre o ocorrido, mas fizemos um resumo e deixamos os detalhes para o dia seguinte, devido ao nosso extremo cansaço.

Já na cama, antes de dormir fizemos uma oração. Primeiro, em agradecimento pelas vitórias até a presente data; depois, solicitando que Ele nos concedesse a benção de sermos papai e mamãe, se fôssemos merecedores deste milagre. Caso isso acontecesse, também pedimos que fôssemos presenteados conforme nossas condições, ou seja, com uma, duas ou três crianças, pois a probabilidade de ter gêmeos é sempre alta nos métodos conceptivos.

No dia seguinte, segunda-feira, acordamos às 11h, completamente revigorados e na expectativa de receber uma ligação e ouvir a notícia de que o óvulo havia sido fecundado.

No fim da tarde o telefone tocou, minha mãe atendeu e disse que a ligação era para sua norinha. Meu coração quase parou enquanto fiquei tentando adivinhar qual era a notícia. De repente, ouvi minha esposa dizer, quase sussurrando:

– Graças a Deus!!!

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Na quarta-feira (15/07/2009) de manhã, Elis partiu para a terra da garoa, no mesmo Hospital, com o objetivo de implantar os pré-embriões e um desejo implacável de ser mãe. Isto significava que ela voltaria pra casa grávida e, depois de 9 meses, eu me tornaria um PAI DE RODINHAS!

SDC10897 - À ESPERA DE UM MILAGRE




A vida é da cor que a gente a pinta.