O CAPACITISMO NOSSO DE CADA DIA

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“Ah, coitado!! Ele é tão bonito, né?!” Comentou “discretamente” uma mulher, direcionando seu olhar de piedade a mim, enquanto meu pai me empurrava na cadeira de rodas no meio da multidão.

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Essa introdução foi só para lhe apresentar uma das expressões do Capacitismo. Uma das, pois esse termo é muito abrangente.

Machismo, Misoginia, Sexismo, Misandria, Racismo, Homofobia, Etarismo, Xenofobia Antissemitismo e tantas outras manifestações de intolerância. Então… O Capacitismo é só outra faceta do preconceito, só que em relação às pessoas com deficiência. Ele pode se configurar de diversas maneiras, inclusive no tratamento e no jeito de se relacionar com esses indivíduos, ou ainda até no olhar direcionado a eles.

Basicamente, o Capacitismo consiste no modo como a sociedade se relaciona com as pessoas que possuem deficiência. Geralmente, o foco dessa relação está em sua limitação (que deveria ser vista apenas como uma característica), e não em sua essência como ser humano. Ele também se manifesta quando o relacionamento entre duas pessoas é pautado simplesmente no aspecto físico ou na condição física de uma delas, inclusive, subestimando-a ou superestimando-a. E isso pode acontecer tanto nas interações sociais como nas relações familiares.

Nós, pessoas com deficiência, somos quase sempre o paciente, o aluno, o espectador, o filho ou a filha. Quando essas posições se invertem, ou seja, quando aparece alguém com alguma limitação, seja ela qual for, que ocupa a posição de médico, de professor, de artista, de pai ou de mãe, a sociedade se espanta, acha magnífico e o chama de guerreiro(a). Naturalizar nossas conquistas e, principalmente, não nos vangloriarmos delas, é uma ação anti-capacitista, que contribui para a desconstrução de estereótipos ultrapassados.

Como visto, o Capacitismo se apresenta nas mais diferentes formas. Resumidamente, ele está presente na exclusão da pessoa com deficiência no dia a dia, no julgamento de incapacidade, na forma como são tratadas. Está igualmente na tentativa de apagar essa deficiência, quando ela é vista como problema, como sinônimo de infelicidade ou quando é usada para expressar algo negativo.

Nessas 53 voltas completadas em torno do sol, todas elas na cadeira de rodas, eu já ouvi (e ainda ouço) comentários e perguntas de todos os tipos. Posso dizer que, no “espectro da bizarrice”, o ser humano é capaz de tudo, principalmente no que diz respeito às suas opiniões e seus questionamentos quando se deparam com o diferente! No passado, essas “pérolas” eram direcionadas com mais frequência ao meu pai e minha mãe. Atualmente, é minha esposa quem mais ouve. Ah! A maioria na minha presença!

A seguir, um Top Five delas:

  • – Nossa! Ele é tão inteligente e, apesar de tudo, é feliz!
  • – Você é pai?!? Glória a Deus!!
  • – É bom tomar um arzinho na rua, né? (Esse comentário é clássico! Eu sempre ouço quando estou dando um rolê pelas ruas e praças da minha pequena e pacata cidade.)
  • Ele quer beber coca-cola? (Neste momento, respondi que preferia uma Brahma… e o garçom completou: – Ah!! Você também gosta de uma cervejinha?)
  • Ele é seu irmão? (Pergunta frequente para minha esposa. Eu juro que um dia ainda respondo: – Sim, somos irmãos e praticamos incesto, com a permissão de nossa família, claro.)

É por isso que eu sempre digo: “Minha vida seria trágica se eu não fosse cômico.” E também é por isso que utilizei o humor para trazer uma reflexão sobre um tema pouco conhecido no Brasil.

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O capacitismo é pautado na construção social de um corpo padrão perfeito denominado como “normal” e da subestimação da capacidade e aptidão de pessoas em virtude de suas limitações físicas, intelectuais ou sensoriais.

São tratamentos diferenciados, muitas vezes infantilizados, camuflados em pequenas expressões e atitudes que podem passar despercebidas no dia a dia. Esse tipo de comportamento se baseia numa visão estereotipada e distorcida em relação às pessoas com deficiência. Elas ocorrem em qualquer circunstância ou situação que deveria ser vista com naturalidade pela sociedade, mas infelizmente não é. A pessoa com deficiência está apenas exercendo seu direito básico de cidadão e, antes de tudo, de ser humano, por exemplo, numa balada de fim de semana, na escola ou na faculdade, na convivência social com vizinhos, no ambiente de trabalho, em um passeio turístico ou em alguma loja do shopping.

Uma sociedade capacitista também pode resultar em políticas públicas retrógradas de assistencialismo e paternalismo, bem como em ações de caridade, promovidas apenas para suprir uma necessidade momentânea da pessoa com deficiência, quase sempre sem propostas que visam resoluções concretas e efetivas a longo prazo.

Assumir que todos escutam, enxergam e entendem da mesma maneira é um equívoco. A falta de preparação e informação da sociedade é um reflexo da própria forma como a deficiência é encarada no Brasil e no mundo. E inclusão e acessibilidade não consistem apenas em rampas para cadeirantes.

Se neste ponto do texto você está se perguntando “o que posso fazer ou deixar de fazer para não ter um comportamento que reforça o Capacitismo?”, lá vai uma dica geral, que considero crucial.

Quando você cruzar com uma pessoa com deficiência, especialmente com alguém que possui limitação motora, não se aproxime ajudando-a imediatamente antes de fazer duas perguntinhas básicas:

  1. Você precisa de ajuda?
  2. Como posso ajudá-lo(a)?

Uma situação, ocorrida com um amigo cego, pode ilustrar esta minha orientação. Certa vez, ele foi conduzido – quase arrastado – contra a sua vontade, até o outro lado da rua, só porque estava parado em uma calçada próxima a um cruzamento.

Sem comentários, né?

Finalizando, a condição de deficiência não pode ser vista pela sociedade como algo que falta em alguém, e sim, pelo prisma da diferença humana. Suas singularidades requerem atenção quanto as adaptações necessárias, para que a inclusão ocorra de fato e os relacionamentos sociais possam ser construídos sem barreiras. Este modelo determina também a criação de políticas públicas em uma sociedade inclusiva, em que a participação ativa de todos os cidadãos, com e sem deficiência, seja uma regra, garantindo, inclusive, o protagonismo e o lugar de fala das pessoas com deficiência em todos os ambientes.

Em resumo, as potencialidades de todas as pessoas devem ser desenvolvidas e as cidades devem estar acessíveis a todas e todos!

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Sergio Nardini – @paiderodinhas

 




A vida é da cor que a gente a pinta.